Dia Internacional das Mulheres e a luta do movimento feminista

Quando a Isa me convidou para falar sobre essa data, topei na hora porque a amo pelo todo meu coração – como já ouvi de algumas crianças, seres que se manifestam poeticamente – mas fiquei preocupada na mesma medida do amor… como, em poucas linhas, daria conta de um tema tão complexo sem ter a propriedade necessária no assunto? Por onde começaria? Que partes mencionaria nessa longa história de luta contra as opressões e por direitos iguais? E que erros não poderia cometer já que – por mais que eu tente, diariamente, desconstruir – ainda me vejo na bolha de privilégios estruturada historicamente às custas das mulheres negras?

Enquanto pensava sobre o assunto, uma lista enorme de luta por direitos e conquistas apareceu, e pensei começar por aí: o direito ao prazer sem estar vinculado a reprodução, a defesa pela liberdade do corpo da mulher, a legalização do aborto (bom lembrar que a lei não impede que o aborto aconteça, ele já acontece, mas quem morre, em clínicas clandestinas, são as mulheres negras que não possuem 8 mil reais para um tratamento humano), pensei também nas reivindicações por melhores políticas de saúde, na conquista de creches, de melhores condições de trabalho, na participação das mulheres na luta armada contra a ditadura, na lei do divórcio, no movimento árduo e contrário a todo tipo de violência contra a mulher. Mas fui me dando conta de que a lista é grande, e que poderia ir além do que já fora citado, conseguiria continuar até com os que, inclusive, parecem tão óbvios, mas que se não fosse a luta protagonizada pelas mulheres, todas estaríamos seguindo o controle de tempo para ir ao banheiro no trabalho, seguiríamos sem postos de saúde, rede de esgoto e água.

Sim, seria interessante esse caminho, mas algo me incomodava muito nessa história, e se tem algo que aprendi – do muito que ainda preciso – com o feminismo afrolatinoamericano foi o de questionar o que a história hegemônica nos traz, então outra lista enorme me apareceu na cabeça:
Direitos para quem? Dia Internacional da Mulher. Que mulher é essa? E o que é ser mulher? Ter um corpo com vagina? Onde fica a experiência existencial? É ser branca e com privilégios? Então achei melhor escrever algo que despertasse a importância de problematizarmos essas questões, que me atravessavam e que mostram como precisamos ir além de um feminismo hegemônico que não considera a situação de tantas outras mulheres, que faz sangrar quando tomamos consciência que esses direitos não alcançaram quem também deveria.

Questões necessárias: que mulheres continuam sofrendo com a ausência de políticas públicas de saúde com qualidade? Quem, embora não estejamos no início da Revolução Industrial, ainda não teve a redução na jornada de trabalho? Quem não tem creches para as crianças? Quem lutou pelo direito à terra, moradia enfrentando todo tipo de intimidação – inclusive policial, mas que continua sem teto ou sem um lugar que não precise sofrer para pagar o aluguel? Para cada conquista, precisamos perguntar para quem foi que rolou, pois, infelizmente, se limitaram/limitam a um grupo privilegiado de mulheres. E como iremos superar essas opressões para pensarmos em um projeto de sociedade melhor não só para um grupo privilegiado? De quem e quais políticas públicas iremos exigir para reparar esse passado histórico de exploração?

Como disse, não sou especialista no assunto, mas um dos caminhos que encontrei foi o de me envolver, participar para aprender a transformar – como bem diz, Giovana Xavier – com o feminismo de mulheres pioneiras na autoria de práticas feministas, como as mulheres negras. Do pouco que já vi, esse feminismo é a via da possibilidade, pois considera as intersecções como raça, orientação sexual e identidade de gênero. E isso quer dizer nos separar? Não, e isso também aprendi com o feminismo de Lelia Gonzales, Angela Davis, Djamila, dentre outras que me ajudaram a entender que a sociedade já está separada pelo racismo, pelas opressões de classe, sexismo e por isso, precisamos considerar esses tipos de opressão que cada mulher sofre com essas divisões postas e nos unirmos para transformar, começando por onde Djamila cita Truth, em seu livro, Lugar de Fala: “é melhor vocês mesmas reformarem a si mesmas em primeiro lugar”. Foi esse caminho que escolhi para mim.

É urgente nos unirmos, apoiarmos movimentos que lutam para que de fato os direitos sejam iguais, e para isso é necessário aprender com as diferentes narrativas que questionam a história hegemônica, formulada pelos mesmos que adoram mudar o foco dos marcos, que nos querem ganhando bombom, flores nesses dias, não que não ame bombom ou flores, mas não mudem o foco!!! Até mesmo porque nenhum buquê da conta de esconder o sangue escorrido e que ainda escorre pela falta de direitos iguais.

Por fim, deixo aqui algo que sempre me dá força para re-existir aos dias em que poderia queimar do calendário e aproveito para fazer minha homenagem a Isa e tantas outras que sempre tiveram uma prática feminista de resistência, mesmo sem saber: a da amizade.


“mesmo no escuro
Me emprestem a retina
De minhas ancestrais
Que enxergaram fé
Quando tudo era medo”
Ryane Leão

Me despeço, aguardando, ansiosamente, pelo dia 05 de setembro (Dia Internacional da Mulher Indígena).

Raquel

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